Em poucos dias, o calendário reúne duas datas que conversam entre si: o Dia das Crianças, em 12 de outubro, e o Dia do Professor, em 15 de outubro. Parecem homenagens separadas, mas tratam do mesmo encontro: alguém que está começando e alguém que se dispõe a acompanhar.
Dia das Crianças: a vida começa pela confiança
Antes de entender o mundo, a criança já acredita nele. Confia no colo, na voz conhecida, na mão que conduz pelo caminho. Ainda não sabe explicar nada disso, mas se apoia inteiramente nisso.
É dessa confiança que nasce a disposição para aprender. Ninguém aprende de verdade com quem não confia. Talvez por isso a infância nos toque tanto: ela lembra que a vida começa por um ato de entrega e que o primeiro conhecimento não é uma informação. É um vínculo.
Dia do Professor: quem ensina responde a essa confiança
Se a criança chega confiando, quem ensina decide o que fazer com essa confiança. Ensinar envolve conteúdo, mas vai além dele. É sustentar, com paciência, a coragem de quem ainda está aprendendo a perguntar, a errar, a recomeçar e a pensar por conta própria.
O trabalho de quem ensina raramente mostra o resultado no mesmo dia. Forma consciência, abre caminhos e confia em frutos que vão amadurecer longe da sala de aula, às vezes muitos anos depois. Há nisso uma forma discreta de fé: plantar sem garantia de ver a colheita e continuar plantando.
Ensinar andando pelo caminho
A tradição bíblica guarda uma imagem bonita sobre a formação. Ao falar das palavras que deveriam passar de uma geração a outra, o Deuteronômio diz que elas seriam ensinadas:
“Assentado em tua casa, e andando pelo caminho.”
Deuteronômio 6.7
O ensino, ali, não fica restrito a um lugar reservado. Acontece no convívio, no exemplo, na conversa de quem caminha ao lado. A formação mais profunda raramente vem de um discurso. Vem de alguém que caminha conosco tempo suficiente para que aprendamos a enxergar o caminho com os próprios olhos.
Isso vale para pais, professores, mentores e líderes. Quem tem alguém sob sua responsabilidade está, de algum modo, ensinando. E ensina, sobretudo, pelo que faz.
Somos todos aprendizes
A criança aprende a confiar. O professor, que um dia também foi criança, descobre a cada turma que ensinar é continuar aprendendo. E nós, adultos, seguimos precisando de quem nos ajude a pensar, a discernir e a decidir.
Somos todos aprendizes. E cada um de nós carrega um pouco de quem nos ensinou.
Nesta semana, minha gratidão vai a todos os que contribuíram para a minha formação e a cada professora e professor que segue escolhendo ensinar. Fica também um desejo: que nenhuma criança cresça sem alguém que a ajude a confiar, e que ninguém que ensina deixe de saber o quanto o seu trabalho importa.
E deixo uma pergunta para você: quem caminhou ao seu lado enquanto você aprendia?
Rodrigo Lucio
